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O pioneirismo de Pernambuco no movimento das Diretas Já

  • Foto do escritor: Alessandra Alves
    Alessandra Alves
  • 29 de mar. de 2023
  • 3 min de leitura

Ato em Abreu e Lima desafiou a Ditadura para cobrar retorno das eleições diretas


Haymone Neto

A Praça da Bandeira, situada no centro da cidade de Abreu e Lima, na Região Metropolitana do Recife (RMR), parece com tantas outras do Brasil, com árvores, canteiros e uma mureta de cimento para sentar e descansar. Em 31 de março de 1983, contudo, aquele pequeno quadrilátero cercado por uma escola pública e um posto de saúde presenciou um evento decisivo para a história recente do Brasil. Ali ocorreu aquele que é considerado o primeiro ato de rua em defesa das eleições diretas para presidente do Brasil durante a Ditadura Militar.

A data não foi escolhida por acaso. No dia 31 de março, as Forças Armadas costumavam celebrar a tomada do poder com desfiles públicos. A Ditadura Militar começou em 1964, com a deposiçãodo presidente João Goulart. Foi um período marcado por censura, autoritarismo, perseguição e morte de adversários políticos.

PALANQUE – Ex-vereadores Severino Farias e Reginaldo Silva, organizadores do primeiro ato das Diretas Já, na praça que reuniu os manifestantes em Abreu e Lima. Foto: Roberta Guimarães


No final dos anos 70, com o desgaste dos governos militares, teve início a abertura política, definida pelo presidente da época, o general Ernesto Geisel, como “lenta, gradual e segura”. Em 1982, com uma série de restrições, os brasileiros puderam finalmente voltar a escolher os governadores dos Estados. Mas o direito de votar para presidente ainda levaria muitos anos para ser conquistado.


Eclosão

“A nossa pergunta era: por que não votar para presidente?”, conta o ex-vereador Severino Farias, um dos promotores do ato de 1983. Filiado ao PMDB, o principal partido da oposição, ele havia sido o parlamentar mais votado na eleição de 1982, a primeira do município de Abreu e Lima, emancipado naquele ano do vizinho Paulista.

Natural de Orobó, no Agreste Setentrional, de onde partiu junto com o pai em uma viagem de jumento por três dias em direção à Capital, Farias era operário numa das muitas fábricas da cidade. Participava da Ação Católica Operária (ACO), movimento da Igreja ligado ao então arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara, que atuava em defesa da democracia. “Eu vinha do sindicato e era perseguido pelas forças militares. Nós sofremos muito na época, mas não tínhamos medo”, afirma.

O ato de 31 de março de 1983 foi muito simples, de acordo com os participantes. “Não havia palanque. Nós usamos umas caixinhas de som e subimos na carroceria de um caminhão”, conta Reginaldo Silva, também ex-vereador da primeira legislatura da Câmara de Abreu e Lima. Assim como o colega Farias, Silva trabalhava no chão de fábrica, era filiado ao PMDB e tinha ligação com o movimento operário da Igreja Católica.


De acordo com Silva, cerca de cem pessoas compareceram ao protesto. Infelizmente, contudo, não há fotos da manifestação. “Nós até chamamos um fotógrafo da cidade para fazer o registro, mas ele teve medo e não apareceu”, relembra. O fato tornou-se folclórico entre os militantes da época e até hoje rende risadas. Também participaram da organização do ato os ex-vereadores José da Silva Brito e Antônio Amaro Cavalcante, ambos já falecidos.

“Nós éramos um grupo muito unido. Havia operários, eletricistas, estudantes e até alfaiates”, lembra o procurador de Justiça Aguinaldo Fenelon, que por dois mandatos comandou o Ministério Público de Pernambuco (MPPE). Estudante universitário na época, ele era o primeiro suplente de vereador da Câmara de Abreu e Lima e também integrou o ato.


“A gente fazia política por um ideal, nossa bandeira era o restabelecimento da democracia”, destaca Fenelon.

Os vereadores também contavam com apoio em outras casas legislativas. Na Alepe, tinham o suporte do deputado Sérgio Longman, do PMDB.

 
 
 

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